Melhor é não ir em modas

10 05 2007

“A moda é feita para passar de moda.”
Coco Chanel

M.Hermann era alguém a quem as modas pouco impressionavam. Não havia nelas nada que lhe importasse. Queixava-se da dificuldade em as acompanhar. Preferia por isso o passado que, inevitavelmente, permanecia sem mudar pelo que era mais fácil de seguir.
Talvez por isso ou por algo semelhante ou, pelo menos, aproximado M. Hermann vestia-se de uma forma estranha, pelo menos para a maioria das pessoas (maioritariamente mais influenciadas pela moda do que ele, inábil para lidar com a sua periodicidade fugaz).
Uma observação mais atenta permitia, todavia, perceber que não havia, porém, nada de bizarro na forma de M. Hermann se vestir. Ela era, simplesmente, desactualizada.
M. Hermann vestia-se como em épocas anteriores à sua, o que lhe dava um ar desfasado mas não estranho, uma vez que não usava nenhuma forma anormal de vestuário (como uso de peças invulgares, aberrantes ou ridículas), apenas inapropriada temporalmente. Vestia-se anacronicamente. E nisso não há estranheza.
Certo dia M. Hermann resolveu comprar uns sapatos novos para substituir uns do início do século XX completamente desgastados, de que até ali não se conseguira desfazer.
Dirigiu-se a uma loja de moda especializada em calçado, uma vez que a sapataria da sua rua não lhe dava garantias de conseguir o que pretendia: outros sapatos do início do século XX.
A loja era construída com base nos pressupostos de venda do século XXI, respeitando por isso as preferências desse século ainda acabado de estrear. Estava situada numa rua, também, especializada nessa área. Encontrava-se dividida em átrios (norte, sul, este, oeste), áreas (A, B, C até Z) – agrupadas por géneros de calçado, modelos, marcas, tamanhos, cores, por sexo, estação e idade – pisos (num total de quinze), estantes (cinquenta mil) e gavetas (seiscentas mil).
Todo o edifício era administrado por duzentos e um funcionários que zelavam pelos interesses da administração, clientes e associados.
Mal entrou, M. Hermann dirigiu-se ao funcionário responsável pelo átrio 1A questionando-o quanto ao sítio onde poderia encontrar uns sapatos para si.
Depois de lhe perguntar pelo número, marca, tipo, material e fim que iriam ter os sapatos, o funcionário resolveu encaminhá-lo para o colega que aconselhava os compradores na demanda do calçado ideal. Este, depois de analisar o seu pé, facultou-lhe mostruários, fez-lhe sugestões e tudo parecia bem encaminhado até que tudo se complicou quando M. Hermann disse que desejava uns sapatos do início do século XX, o que chocava com a política da empresa exclusivamente vocacionada para calçado do século XXI. Resolvido a demover M. Hermann do seu gosto por sapatos do início do século XX (completamente fora de moda e autênticos objectos de colecção), pelo telefone o funcionário que o atendia chamou um companheiro, habilitado especialmente para casos em que o freguês era imune a modismos, para lhe apresentar argumentos que o fizessem perceber a importância da moda na vida das pessoas. Sem ter conhecimento de nada, M. Hermann pensou ao ver o sujeito ao telefone que ele tentava encontrar nos armazéns da loja o modelo pretendido. Percebeu pelo que se seguiu que não. Ao chegar junto de M. Hermann o indivíduo habilitado especialmente para casos em que o cliente era isento de modismos, responsável pelo piso 10, apresentou-se e cumprimentou-o. Não havendo informações concretas acerca da conversa dos dois sabe-se que estiveram juntos não mais do que seis minutos. Sobre o que falaram podemos apenas especular. No entanto, M. Hermann continuou a desejar os mesmos sapatos por isso não é difícil perceber o que sucedeu. O sujeito voltou para o piso 10 com o problema por resolver.
Provavelmente enviado pelo sujeito habilitado especialmente para casos em que o freguês era imune a modismos, outro indivíduo acercou-se de M. Hermann para o convidar a visitar a loja na esperança de que ele encontrasse outro modelo que lhe interessasse. M. Hermann viu cerca de trinta e cinco modelos de sapatos, de formatos, tonalidades e estilos distintos. Nenhum lhe agradou.
Contactado pelo funcionário com quem M. Hermann visitou o estabelecimento outro indivíduo (responsável pela área C do piso 7) aproximou-se de M. Hermann para lhe perguntar se, uma vez que não gostava de nenhum dos sapatos da loja, estaria interessado em que lhe fizessem uma cópia exacta dos que possuía, respeitando técnicas, materiais e desenho da altura. M. Hermann que, entretanto, se resignara, à evidência de que nunca iria encontrar sapatos iguais aos seus ficou exultante com aquela possibilidade e concordou de imediato. Um problema se colocava, porém, os sapatos teriam de ficar na loja para fazer medições, apurar metodologias, tudo o que conduzisse a uma réplica exacta. M. Hermann viu-se, assim, forçado a utilizar uns sapatos que a loja disponibilizava para situações como a dele, uma vez que não podia ir descalço para casa. Olhou desconfiado para os sapatos que o funcionário responsável pela área W do piso 3 lhe entregara como substitutos. Ao sair da loja reparou que os sapatos eram bem mais confortáveis do que os seus. A cor, também, não lhe desagradava. Ía até bem com o que trazia vestido. Várias pessoas conhecidas que se cruzaram com ele elogiaram-lhe a troca estranhando a inovação. Mal chegou a casa M. Hermann telefonou para a loja e falou com o responsável pelas reproduções de modelos indisponíveis na loja, a trabalhar no piso 13. Anulou a encomenda. No dia seguinte pagou os sapatos do século XXI que levara emprestados com que ficou. Desde esse dia nunca mais deixou de os usar. O respeito das tendências exige alguns sacrifícios. Os sapatos caíram em desuso volvidos dois meses. M. Hermann andava finalmente na moda.





Sobre a importância de se falar sobre o que se sabe

9 05 2007

“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”
Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus

Um amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann, com queixo duplo e barriga tripla citava sempre o mesmo livro do qual só conhecia metade das páginas ou, na melhor das hipóteses, dois terços. Não era caso raro, sabendo-se existir número significativo de leitores com essa propensão independentemente da capa, formato, autor ou conteúdo das brochuras com que contactam.
M. Hermann conhecia outras pessoas de citação única e de livros que só avaliavam pela metade ou na melhor das hipóteses dois terços do seu conteúdo. Ainda que nem todos fossem seus amigos ou amigos de amigos.
Ora, é sabido que os livros têm umas partes melhores e outras piores pelo que conhecê-los sem ser na íntegra é sempre um risco. Podemos sempre apanhar um terço mau ou uma metade ainda pior. Maior o sufoco quando se aproveita para citação esse pouco. Mas o amigo do amigo de outro amigo de M. Hermann aconselhava o seu único livro, do qual conhecia entre a metade e dois terços do seu conteúdo, como se fosse preferível a todos os outros. Não o era, provavelmente. Ainda assim era esse que aconselhava. Era natural, uma vez que era o único que tinha lido. E só devemos falar daquilo que conhecemos. Mais não seja para não sermos apanhados desprevenidos por uma tese traiçoeira. Embora o homem em questão não estivesse, totalmente, livre desse embaraço por poder ser questionado sobre parte nunca lida continuou a citar o seu livro.
A juntar ao seu gosto pela citação de um livro de que só conhecia metade ou no máximo dois terços, deste acrescia o gosto do amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann ler na diagonal o que fazia com que grande parte da extensão do livro ficasse por ler, o que não ocorreria se respeitasse os trâmites de leitura em vigor de tradição mais horizontalizada.
O amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann de citação única de um livro de que só conhecia metade ou no máximo dois terços a que se juntava a particularidade de ler na diagonal tinha um problema grave de concentração. Fora-lhe diagnosticado, um défice de atenção – por um indivíduo que se viu na contingência de ter de ler livros de medicina na totalidade para poder ser médico – que o impedia de apurar o sentido a parágrafos completos pelo que se ficava por frases curtas. Tendo em consideração as características da leitura do indivíduo fazendo as contas necessárias – usando o número total de páginas como referência, atribuindo índices baseados nos atributos do seu modo de ler e sabendo que o número de páginas lidas deixaria sempre de fora pelo menos um terço da paginação – alguém concluiu que ele se limitava a citar o título da obra que lera. Mas porque citará ele só um livro se se limita a alvitrar o título?, perguntaram todas as pessoas que tomaram conta da situação – algumas das quais reconhecidas por serem de citação, também, pouco generosa –, bastar-lhe-ia passar os olhos por qualquer estante pelas lombadas dos volumes aí existentes para retirar daí citações em maior quantidade. Alguém que não era amigo de M. Hermann mas que privava, frequentemente, com aquela criatura resolveu, porém, o mistério. A biblioteca do sujeito era de exemplar único. E, afinal, só se deve falar sobre o que se sabe.





Personalidades complexas ou o problema das rectas

8 05 2007

M.Hermann tinha uma personalidade complexa. Certas crianças nascem com cabelo farto ou principiar de dentição. M. Hermann não surgiu com nenhuma dessas características. Nasceu com uma personalidade complexa, apesar de só o ter percebido aos dezoito anos, cinco meses e seis dias quando um sujeito de personalidade simples lho disse. Ainda que tivesse uma personalidade complexa M. Hermann admitia nos outros o óbvio, não vendo nisso embaraço para o carácter provavelmente por ter sido uma pessoa de personalidade simples que lhe dissera que ele possuía uma personalidade complexa.
As pessoas com personalidade complexa não são diferentes da vulgar criatura. Essas são as pessoas extravagantes. Mas M. Hermann não o era, embora tivesse tido essa tentação em 1998 por causa de uma namorada excêntrica. Como a namorada excêntrica casou com um anterior pretendente – esse sim excêntrico – M. Hermann resolveu manter-se fiel à sua personalidade complexa, por si só já rigorosa nos requisitos. Isso nem sempre se demonstrou uma boa opção se pensarmos, por exemplo, que não existem lojas habilitadas para pessoas com personalidades complexas e é possível encontrar, em contrapartida, certos locais com produtos exóticos para pessoas extravagantes.
Ora as pessoas com personalidade complexa são conhecidas por terem comportamentos e gostos próprios de personalidades complexas como acontece, aliás, com os indivíduos de personalidade comum conhecidos por terem comportamentos e gostos próprios de personalidades comuns. Tal sucedia com M. Hermann conquanto, também, se lhe conhecesse atitudes e gostos de pessoas exigentes (com atributos próprios mas não contradizendo os das personalidades complexas). Feita esta ressalva – que como todas as ressalvas se demonstrará útil no futuro – não é difícil perceber que M. Hermann tivesse uma postura adequada à sua personalidade complexa barra exigente (salvaguardando ter esta última propriedade menor volumetria em confrontação com a complexidade).
O habitual era, de acordo com a personalidade complexa de M. Hermann, pouco prometedor. Optava, por isso, pela irregularidade e não pela rotina. Preferia ir à origem das coisas antes de passar, de imediato, para a conclusão. Preocupava-se com a causa antes de cismar com o efeito.
Devido ao seu complicado temperamento M. Hermann nunca escolhia o caminho mais directo para as coisas. Sucede assim com as pessoas de personalidade complexa, especialmente se também forem exigentes (mesmo que levemente). Pensava nas rectas que nunca se encontram, embora caminhem paralelamente, e isso assustava-o. Preferia o zig zag. Mesmo correndo o risco dos trocar, tomando o zig quando devia preferir o zag e este quando importava mais o zig. O caminho mais longo parecia-lhe mais cheio de possibilidades. Ainda que a longa distância seja mais propícia a enganos que a curta e, por essa razão, tornando mais fácil as pessoas perderem o norte ainda para mais não havendo mapas especiais para pessoas de personalidade complexa. Valia o risco. Talvez isso explique o facto de nunca mais ter sido visto desde o dia em que saiu para comprar laranjas na mercearia da sua rua, conhecida pela sua simplicidade e laranjas importadas da Califórnia. Tentem nos EUA.





Sorte, azar e justiça divina

4 05 2007

Na televisão contavam a história de um indivíduo que gostava de tentar a sorte. Não há nisso nada de anormal. Muita gente o faz, pensou M. Hermann enquanto assentava uma chave: 23 – 45 – 34 – 12 – 7 – 11 – 40. O homem jogava regularmente na lotaria utilizando um sistema matemático altamente aleatório que seleccionava os números que deveria de usar dentro de uma lógica irracional, a que se chama intuição. Construíra para isso uma máquina complicadíssima, única no mundo, que ao contrário das suas irmãs mecânicas possuía instinto. O homem baseava o seu procedimento na convicção de que como deus não joga aos dados, ele o poderia bater num terreno que não era o seu. Uma vez que se tratava do chão pantanoso da sorte e como se sabe essa não é uma matéria que interesse a deus pois todos os seus desígnios, mesmo os mais misteriosos, têm na sua génese uma necessidade própria e isenta de acaso. Após várias tentativas, o homem acabou por ganhar o primeiro prémio da lotaria nacional. Por sorte, disseram na altura. No entanto, quando foi feito o sorteio em que ele saiu como vencedor o homem estava morto pois falecera durante a noite de causa desconhecida mas nem por isso menos letal. M. Hermann desligou a televisão e pensou: deus pode não jogar aos dados mas equilibra isso com justiça divina.





A pontualidade

2 05 2007

M.Hermann recebeu um pré-aviso ao aviso nº 5438 enviado pelo ministério 125 A-B, secção 1456C. Nestes casos tem-se 28 horas e 35 minutos impreterivelmente para resolver a situação. Teve, por isso, de ir tratar de uns impressos que o ministério 125 A-B, secção 1456C, lhe tinha solicitado. Dirigiu-se à repartição 124V na rua 46 norte. M. Hermann era, diga-se, extremamente pontual. Às 9 horas em ponto estava à porta da repartição 124V na rua 46 norte para entrar. A porta, no entanto, só se abriu às 9h10. M. Hermann que é pontual mas, também, curioso perguntou porquê, uma vez que o horário dizia expressamente «abertura às 9h». Porquê aquela falta de pontualidade? O funcionário nº 1453V respondeu-lhe que estava no local às 9h embora não tivesse aberto a porta uma vez que antes disso era preciso realizar algumas tarefas preliminares como: polir o balcão, vaporizar com ambientador o local e preparar-se psicologicamente para a sua tarefa – entregar e receber impressos. Agastado com a falta de visão de M. Hermann o funcionário disse-lhe que poderia preencher o impresso 897C ou 345B – caso achasse a questão grave ou muito grave – especialmente criado para reclamações daquele género. A sua reivindicação seria analisada num prazo nunca inferior a 6 meses e 12 horas e 15 minutos por um funcionário especialmente formado para esse efeito. A sua inscrição para reserva dos impressos seria a nº 26778.
M. Hermann não o fez, considerando que a pontualidade particular do indivíduo conjuntamente com a conversa com ele o tinham atrasado e acabaria por perder o autocarro 45 que, esse sim, nunca se atrasava ou pelo menos regulava-se por uma pontualidade que percebia. Pensou que se aquele fosse um procedimento normal no mundo, aquele tipo de pontualidade exigia que se atrasasse os relógios em 10 minutos ou que se inventasse um tipo especial que fizesse automaticamente essa subtracção, para manter a pontualidade habitual ou ela desapareceria. Passou a dirigir-se à repartição 125V na rua 49 sul, conhecida por ser mais condescendente com os prazos, para resolver os seus problemas.





Normalidade

28 04 2007

Um familiar de M. Hermann teve uma doença muito grave. Na altura toda a gente o tranquilizou, já que diziam que era uma coisa normal. Apesar disso, o familiar de M. Hermann acabou por morrer. Parece que para a clínica geral, ao contrário da psiquiatria, a normalidade não é relevante.





Os clientes de C. Khunz

20 04 2007

O número de sócio de C. Khunz na associação de barbeiros era o 5673.Não havia mais ninguém na associação de barbeiros com o número 5673 o que o tornava inconfundível. Embora isso só acontecesse por causa de um algarismo C. Khunz tinha nisso orgulho.
Apesar de só ser inconfundível por causa de um algarismo C. Khunz tinha características próprias. Começava a fazer a barba aos seus clientes sempre da esquerda para a direita. O cabelo cortava-o da direita para a esquerda. Demorava, exactamente, cinco minutos e meio a fazer uma barba e sete minutos e meio a cortar um cabelo. Independentemente do tamanho. Num bom dia C. Khunz gastava uma embalagem de creme de barbear. Num mau dia ficava-se pelos dois terços.
C. Khunz gastava mensalmente 150 caixas de lâminas de barbear, 6 frascos de after-shave e 10 de shampôo.
C. Khunz tinha 46 anos e a média de idades dos seus clientes era de 36 anos. Havia por isso uma diferença de 10 anos entre a sua idade e a média de idades dos seus clientes. 10 anos era, exactamente, o tempo que C. Khunz tinha a barbearia. Como na maioria das coincidências não havia muito a explicar.
C. Khunz tinha muitos clientes. Tinha um cliente que era músico e que era bastante reservado. Tinha outro que era actor e razoavelmente extrovertido. Outro que era agente artístico que umas vezes era tímido e discreto e outras expansivo e falador e que dizia ter familiares provenientes da família do Sr. La Palice que como se sabe quinze minutos antes de morrer, ainda, estava vivo. Havia, também, dois que eram amigos. Um – com baixa auto-estima – achava que a melhor perspectiva sobre as coisas era a dos outros e o outro – sem problemas de auto-estima – que achava que a melhor (e provavelmente única) perspectiva sobre as coisas era a sua.
Outro cliente, diferente de todos os outros, mas que recorria a C. Khunz pelas mesmas razões era, extremamente, metódico. Sempre que ía à barbearia pedia que C. Khunz lhe cortasse o seu cabelo debaixo para cima, da esquerda, para a direita e a barba no sentido inverso dos ponteiros o que era muito complicado para C. Khunz pois começava a fazer a barba aos seus clientes sempre da esquerda para a direita e o cabelo cortava-o da direita para a esquerda.
Um cliente que gostava de ser surpreendido solicitou-lhe que nunca lhe cortasse o cabelo da mesma maneira. Dava-lhe total liberdade para lho aparar segundo a sua inspiração, engenho e capacidade técnica. Da barbearia saiu com o cabelo com consistência cor e cortes estranhos, ridículos, emabaraçantes ousados mas nunca iguais. A ninguém pediu C. Khunz explicações pois como é sabido para o melhor e para o pior o cliente tem sempre razão.





O código e a mensagem

30 03 2007

O código de barras foi considerado uma das grandes invenções do século XX, leu M. Hermann no jornal. Mais importante do que certas obras literárias, dizia na gazeta. M. Hermann concluiu que as pessoas preferem os códigos às mensagens. Apesar disso continuou a ler diariamente o seu jornal favorito. Dava-lhe mais prazer conhecer a informação do que perceber a semiótica. Quem lhe poderá levar a mal?





Dificuldades do choro

18 03 2007

M.Hermann ao contrário do seu amigo C. Khunz não era, propriamente, aquilo a que se chama uma pessoa emotiva. Muito pelo contrário. Faltavam-lhe características essenciais para o ser. E o ser é, como se sabe, bastante exigente requerendo, logo à partida, o poder ser. A M. Hermann falhava, provavelmente, dois terços do mínimo exigível para ser emotivo. E isso porque a emotividade tem graus, podendo o indivíduo ser, pelo menos, pouco emotivo, emotivo ou muito emotivo. M. Hermann estaria, na melhor das hipóteses, no patamar abaixo do indivíduo pouco emotivo. M. Hermann carecia para ser uma pessoa emotiva de quantidade de sentimentos correspondente. Em certa ocasião fez notar isso aos que o rodeavam e que não percebiam a sua natureza, nomeadamente a sua amiga Hanna C, ela uma criatura muito emotiva que não entendia a incapacidade de M. Hermann de se emocionar.
Talvez devido à sua indigência emocional (ou por outra razão menos evidente e pelo que foi dito agora a despropósito) durante anos M. Hermann nunca chorou. Isto embora, em algumas ocasiões, tivesse tido motivos para isso. Em situações muito numerosas até. E a quantidade, também, tem relação com as vezes que se chora sendo esta uma razão evidente para isso e pelo que foi dito sem vir agora a despropósito. Como quando partiu as duas pernas, lhe desapareceram todas as bagagens no aeroporto, ou lhe faleceu um amigo de infância. A certa altura M. Hermann, inexplicavelmente, começou a chorar e só parou decorridos três dias. Não percebeu porquê. Nem ninguém. Especialmente Hanna C., ela sim, uma pessoa emotiva. Afinal tinha acabado de receber o reembolso do IRS.





Chefe é chefe

12 03 2007

Hanna C. ansiava por ser chefe. Não tinha, no entanto, qualidades suficientes para isso uma vez que essa é uma função exigente em atributos. Faltavam-lhe, pelo menos, um quarto das características necessárias para chefiar.
Para chefiar são necessárias várias qualidades, ao contrário de ser chefiado cuja principal característica imprescindível é ser obediente.
Hanna C. respeitava os chefes e obedecia-lhes sem os questionar. Depositava neles grande confiança. Percebe-se por isso que possuía a principal propriedade para ser chefiado: ser obediente. Faltavam-lhe, porém, os elementos importantes para ser chefe. Demorou 5 anos a adquiri-los. Durante esse período nunca deixou de ser obediente. Se não o tivesse sido teria demorado 15 anos.





A utilidade dos horários

8 03 2007

Hanna C. ligou a televisão à hora indicada mas o seu programa favorito tinha começado 15 minutos antes. No dia seguinte sucedeu o mesmo só que o intervalo entre a hora marcada e o horário de início era de 8 minutos.
Volvida uma semana o intervalo era de 60 minutos. Passados seis meses o intervalo entre a hora marcada e o horário de início era de cinco dias.
Devido às alterações Hanna C. começou a ver mais televisão pois tinha mais tempo para acompanhar mais séries. Passou a acompanhar 4 séries, a ver diariamente 2 documentários, um filme e 4 noticiários uma vez que o intervalo entre a hora marcada e o horário real de início dos programas o permitia.
No mês seguinte mudaram a grelha televisiva. Na primeira semana todos os horários foram cumpridos na íntegra. Na segunda havia uma oscilação de 5 minutos antes da hora marcada para o programa, durante a semana, e 11 minutos depois no fim-de-semana. Na terceira 2 minutos antes da hora marcada, durante a semana, e 1 minuto depois no fim-de-semana. Na semana seguinte nova variação. Hanna C. não percebia a lógica dos horários e começou a ouvir rádio.





Vender é vender

6 03 2007

Hanna C. (casada com C. Khunz) era vendedora. Vendia muitas coisas. Mas sempre objectos, nunca serviços. Especializara-se em coisas e não acções por serem menos exigentes.
Percebeu que mais que vender objectos lhes vendia as propriedades, nomeadamente volume e funções. Vendeu, por exemplo, caixas para guardar alimentos no frigorífico. Reparou que as pessoas as escolhiam tendo em atenção a cor, tamanho e capacidade hermética. Vendeu, depois, carros. Verificou que as pessoas os compravam tendo em consideração a potência e o modelo. Em todas as vendas o comprador tinha, também, em atenção relações: qualidade/preço; necessidade/dinheiro disponível; utilidade/urgência.
Com os anos Hanna C. concluiu que vendia volumes, funções e relações. Por essa razão era-lhe indiferente o produto. Vender é vender.





Dietas e saltos altos

2 03 2007

Hanna C. tinha uma amiga que teve uns problemas de saúde e foi ao médico. O médico, especialista em especialidades muito especiais, depois de a auscultar e pesar disse-lhe que ela tinha demasiado peso para a sua altura. Faltavam-lhe 5 centímetros para que o seu peso fosse o ideal. A amiga de Hanna C. escutou o médico, especialista em especialidades muito especiais, e ficou preocupada por apenas cinco centímetros não ser saudável. A amiga de Hanna C. tinha, porém, outra dificuldade. Não gostava de dietas. Por essa razão comprou uns sapatos de salto alto. Passou a ter a altura ideal para o seu peso.
Outra amiga de Hanna C. não se sentindo bem, em certa ocasião, consultou o mesmo médico, especialista em especialidades muito especiais, consultado pela amiga de Hanna C.. O médico, especialista em especialidades muito especiais, que tinha tratado a outra amiga de Hanna C. achou que, também, aquela sua amiga possuía peso a mais para alguém do seu tamanho. Também esta amiga de Hanna C. não gostava de dietas. Hanna C. que era daquelas pessoas que são amigas da sua amiga apresentou as duas. A amiga que primeiro tinha recorrido ao médico especialista em especialidades muito especiais contou-lhe dos saltos altos. A amiga de Hanna C. que, também, não gostava de dietas seguiu o conselho. Tem hoje 2 metros e 25 centímetros.





Dificuldades discursivas

27 02 2007

C. Khunz não conseguia falar em público. Carecia para isso de articulação e prosápia. No dia da abertura da sua barbearia, durante a inauguração, solicitaram-lhe que, extemporâneo, brindasse os convidados com discurso. C. Khunz vendo-se em apuro concebeu uma estratégia para ultrapassar o seu embaraço. Uma vez que é sabido que, para a maioria, dos infortúnios há remédio ajustado. E que é da necessidade que saíem as melhores respostas pela capacidade adelgaçante que tem para com o engenho. Sabendo que o problema para si eram as pessoas pois quando ensaiava os discursos em casa tudo lhe saía bem, primeiramente resolveu imaginar a sala vazia. Não resultou e verificou que isso era, até, pior pois era-lhe difícil dirigir-se a um público abstracto. Resolveu, assim, imaginar as pessoas como objectos. Dividiu o auditório em três classes: objectos esféricos, cilíndricos e cubos. Depois identificou-os para mais facilmente se dirigir a eles: lápis, esferográficas, caixas e bolas. Fragmentou-as, posteriormente. em sub-classes: lápis nº1, 1A e B nº2, C e D nº3, A, nº4, F, nº5, A, D, E e F, esferográficas pretas, vermelhas e azuis, de ponta fina e grossa, caixas grandes, pequenas e assim-assim e bolas de uma, duas, três e quatro cores.
Reparou que durante o seu discurso, uma vez que não havia lugares marcados, os lápis nº1 A, trocaram de lugar com os B e os nº2 ocuparam os dos C e D os nº3 com os nº4 e nº5 as esferográficas pretas, vermelhas e azuis, de ponta fina e grossa saíram em grupo, deixou de ver as caixas grandes, pequenas e assim-assim bem como as bolas de uma, duas, três e quatro cores. Todo o seu horizonte de sentido tinha sido alterado. Entrou em pânico. Deixou de reconhecer o seu público. O que, como se sabe, é terrível e impossibilita uma comunicação efectiva. Dirigia-se a um público e, afinal, falava, com outro. O seu discurso não estava, claramente, adaptado ao seu auditório. C. Khunz não conhecia o seu público e, por isso, não o conseguia conquistar.
No primeiro aniversário da barbearia C. Khunz traumatizado como que sucedera no ano anterior e uma vez que o seu problema se mantinha imaginou os seus convidados como animais selvagens. Dado que iria estar presente o presidente da câmara considerou digno do seu estatuto a atribuição de leão para si. Para os secretários do presidente da câmara considerou a possibilidade das hienas. Para a mulher deste de leoa por razões de estatuto, como é óbvio. O problema surgiu quando se viu obrigado a escolher um animal para a amante do presidente da câmara que, inexplicavelmente, sabia que iria estar presente. C. Khunz resolveu então reconsiderar a possibilidade dos animais e trocar pela utilização de flores. Mais pensava no assunto menos conseguia chegar à conclusão de quais. Pensou então nos minerais. Nova indecisão. C. Khunz resolveu-se, então, pela solução mais fácil. Não haveria festa de aniversário. Desde esse dia nunca mais nenhum aniversário da barbearia foi comemorado. Se não se pede a sapateiro que toque rabecão por que razão se há-de exigir a barbeiro que tenha erudição?





Plano A, B e C

24 02 2007

C. Khunz teve várias ocupações durante a sua vida. Para todas elas tivera sempre um plano B caso algo corresse mal. Uma livraria fora um plano B para um atelier, o primeiro restaurante o plano B para uma curta carreira de escritor, o segundo restaurante o plano B para o primeiro.
Parecia-lhe, agora, estranho arranjar um plano B para uma actividade que fora concebida como um plano B para uma plano A. A C. Khunz pareceu, por isso, acertado conceber um plano C, para a barbearia, mas uma vez que os planos B têm cumprido a sua função ao longo dos tempos e têm bastado C. Khunz achou que não devia hostilizar uma tradição ancestral, que por pouco ancestral que fosse tem, como é costume, o hábito que a sustenta e o hábito é uma coisa demasiado antiga para não ser levado a sério. C. Khunz deu, então, o nome de plano C à barbearia. Ninguém percebeu porquê. «Partidários do plano B», pensou.