Melhor é não ir em modas

10 05 2007

“A moda é feita para passar de moda.”
Coco Chanel

M.Hermann era alguém a quem as modas pouco impressionavam. Não havia nelas nada que lhe importasse. Queixava-se da dificuldade em as acompanhar. Preferia por isso o passado que, inevitavelmente, permanecia sem mudar pelo que era mais fácil de seguir.
Talvez por isso ou por algo semelhante ou, pelo menos, aproximado M. Hermann vestia-se de uma forma estranha, pelo menos para a maioria das pessoas (maioritariamente mais influenciadas pela moda do que ele, inábil para lidar com a sua periodicidade fugaz).
Uma observação mais atenta permitia, todavia, perceber que não havia, porém, nada de bizarro na forma de M. Hermann se vestir. Ela era, simplesmente, desactualizada.
M. Hermann vestia-se como em épocas anteriores à sua, o que lhe dava um ar desfasado mas não estranho, uma vez que não usava nenhuma forma anormal de vestuário (como uso de peças invulgares, aberrantes ou ridículas), apenas inapropriada temporalmente. Vestia-se anacronicamente. E nisso não há estranheza.
Certo dia M. Hermann resolveu comprar uns sapatos novos para substituir uns do início do século XX completamente desgastados, de que até ali não se conseguira desfazer.
Dirigiu-se a uma loja de moda especializada em calçado, uma vez que a sapataria da sua rua não lhe dava garantias de conseguir o que pretendia: outros sapatos do início do século XX.
A loja era construída com base nos pressupostos de venda do século XXI, respeitando por isso as preferências desse século ainda acabado de estrear. Estava situada numa rua, também, especializada nessa área. Encontrava-se dividida em átrios (norte, sul, este, oeste), áreas (A, B, C até Z) – agrupadas por géneros de calçado, modelos, marcas, tamanhos, cores, por sexo, estação e idade – pisos (num total de quinze), estantes (cinquenta mil) e gavetas (seiscentas mil).
Todo o edifício era administrado por duzentos e um funcionários que zelavam pelos interesses da administração, clientes e associados.
Mal entrou, M. Hermann dirigiu-se ao funcionário responsável pelo átrio 1A questionando-o quanto ao sítio onde poderia encontrar uns sapatos para si.
Depois de lhe perguntar pelo número, marca, tipo, material e fim que iriam ter os sapatos, o funcionário resolveu encaminhá-lo para o colega que aconselhava os compradores na demanda do calçado ideal. Este, depois de analisar o seu pé, facultou-lhe mostruários, fez-lhe sugestões e tudo parecia bem encaminhado até que tudo se complicou quando M. Hermann disse que desejava uns sapatos do início do século XX, o que chocava com a política da empresa exclusivamente vocacionada para calçado do século XXI. Resolvido a demover M. Hermann do seu gosto por sapatos do início do século XX (completamente fora de moda e autênticos objectos de colecção), pelo telefone o funcionário que o atendia chamou um companheiro, habilitado especialmente para casos em que o freguês era imune a modismos, para lhe apresentar argumentos que o fizessem perceber a importância da moda na vida das pessoas. Sem ter conhecimento de nada, M. Hermann pensou ao ver o sujeito ao telefone que ele tentava encontrar nos armazéns da loja o modelo pretendido. Percebeu pelo que se seguiu que não. Ao chegar junto de M. Hermann o indivíduo habilitado especialmente para casos em que o cliente era isento de modismos, responsável pelo piso 10, apresentou-se e cumprimentou-o. Não havendo informações concretas acerca da conversa dos dois sabe-se que estiveram juntos não mais do que seis minutos. Sobre o que falaram podemos apenas especular. No entanto, M. Hermann continuou a desejar os mesmos sapatos por isso não é difícil perceber o que sucedeu. O sujeito voltou para o piso 10 com o problema por resolver.
Provavelmente enviado pelo sujeito habilitado especialmente para casos em que o freguês era imune a modismos, outro indivíduo acercou-se de M. Hermann para o convidar a visitar a loja na esperança de que ele encontrasse outro modelo que lhe interessasse. M. Hermann viu cerca de trinta e cinco modelos de sapatos, de formatos, tonalidades e estilos distintos. Nenhum lhe agradou.
Contactado pelo funcionário com quem M. Hermann visitou o estabelecimento outro indivíduo (responsável pela área C do piso 7) aproximou-se de M. Hermann para lhe perguntar se, uma vez que não gostava de nenhum dos sapatos da loja, estaria interessado em que lhe fizessem uma cópia exacta dos que possuía, respeitando técnicas, materiais e desenho da altura. M. Hermann que, entretanto, se resignara, à evidência de que nunca iria encontrar sapatos iguais aos seus ficou exultante com aquela possibilidade e concordou de imediato. Um problema se colocava, porém, os sapatos teriam de ficar na loja para fazer medições, apurar metodologias, tudo o que conduzisse a uma réplica exacta. M. Hermann viu-se, assim, forçado a utilizar uns sapatos que a loja disponibilizava para situações como a dele, uma vez que não podia ir descalço para casa. Olhou desconfiado para os sapatos que o funcionário responsável pela área W do piso 3 lhe entregara como substitutos. Ao sair da loja reparou que os sapatos eram bem mais confortáveis do que os seus. A cor, também, não lhe desagradava. Ía até bem com o que trazia vestido. Várias pessoas conhecidas que se cruzaram com ele elogiaram-lhe a troca estranhando a inovação. Mal chegou a casa M. Hermann telefonou para a loja e falou com o responsável pelas reproduções de modelos indisponíveis na loja, a trabalhar no piso 13. Anulou a encomenda. No dia seguinte pagou os sapatos do século XXI que levara emprestados com que ficou. Desde esse dia nunca mais deixou de os usar. O respeito das tendências exige alguns sacrifícios. Os sapatos caíram em desuso volvidos dois meses. M. Hermann andava finalmente na moda.





Sobre a importância de se falar sobre o que se sabe

9 05 2007

“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”
Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus

Um amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann, com queixo duplo e barriga tripla citava sempre o mesmo livro do qual só conhecia metade das páginas ou, na melhor das hipóteses, dois terços. Não era caso raro, sabendo-se existir número significativo de leitores com essa propensão independentemente da capa, formato, autor ou conteúdo das brochuras com que contactam.
M. Hermann conhecia outras pessoas de citação única e de livros que só avaliavam pela metade ou na melhor das hipóteses dois terços do seu conteúdo. Ainda que nem todos fossem seus amigos ou amigos de amigos.
Ora, é sabido que os livros têm umas partes melhores e outras piores pelo que conhecê-los sem ser na íntegra é sempre um risco. Podemos sempre apanhar um terço mau ou uma metade ainda pior. Maior o sufoco quando se aproveita para citação esse pouco. Mas o amigo do amigo de outro amigo de M. Hermann aconselhava o seu único livro, do qual conhecia entre a metade e dois terços do seu conteúdo, como se fosse preferível a todos os outros. Não o era, provavelmente. Ainda assim era esse que aconselhava. Era natural, uma vez que era o único que tinha lido. E só devemos falar daquilo que conhecemos. Mais não seja para não sermos apanhados desprevenidos por uma tese traiçoeira. Embora o homem em questão não estivesse, totalmente, livre desse embaraço por poder ser questionado sobre parte nunca lida continuou a citar o seu livro.
A juntar ao seu gosto pela citação de um livro de que só conhecia metade ou no máximo dois terços, deste acrescia o gosto do amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann ler na diagonal o que fazia com que grande parte da extensão do livro ficasse por ler, o que não ocorreria se respeitasse os trâmites de leitura em vigor de tradição mais horizontalizada.
O amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann de citação única de um livro de que só conhecia metade ou no máximo dois terços a que se juntava a particularidade de ler na diagonal tinha um problema grave de concentração. Fora-lhe diagnosticado, um défice de atenção – por um indivíduo que se viu na contingência de ter de ler livros de medicina na totalidade para poder ser médico – que o impedia de apurar o sentido a parágrafos completos pelo que se ficava por frases curtas. Tendo em consideração as características da leitura do indivíduo fazendo as contas necessárias – usando o número total de páginas como referência, atribuindo índices baseados nos atributos do seu modo de ler e sabendo que o número de páginas lidas deixaria sempre de fora pelo menos um terço da paginação – alguém concluiu que ele se limitava a citar o título da obra que lera. Mas porque citará ele só um livro se se limita a alvitrar o título?, perguntaram todas as pessoas que tomaram conta da situação – algumas das quais reconhecidas por serem de citação, também, pouco generosa –, bastar-lhe-ia passar os olhos por qualquer estante pelas lombadas dos volumes aí existentes para retirar daí citações em maior quantidade. Alguém que não era amigo de M. Hermann mas que privava, frequentemente, com aquela criatura resolveu, porém, o mistério. A biblioteca do sujeito era de exemplar único. E, afinal, só se deve falar sobre o que se sabe.





Personalidades complexas ou o problema das rectas

8 05 2007

M.Hermann tinha uma personalidade complexa. Certas crianças nascem com cabelo farto ou principiar de dentição. M. Hermann não surgiu com nenhuma dessas características. Nasceu com uma personalidade complexa, apesar de só o ter percebido aos dezoito anos, cinco meses e seis dias quando um sujeito de personalidade simples lho disse. Ainda que tivesse uma personalidade complexa M. Hermann admitia nos outros o óbvio, não vendo nisso embaraço para o carácter provavelmente por ter sido uma pessoa de personalidade simples que lhe dissera que ele possuía uma personalidade complexa.
As pessoas com personalidade complexa não são diferentes da vulgar criatura. Essas são as pessoas extravagantes. Mas M. Hermann não o era, embora tivesse tido essa tentação em 1998 por causa de uma namorada excêntrica. Como a namorada excêntrica casou com um anterior pretendente – esse sim excêntrico – M. Hermann resolveu manter-se fiel à sua personalidade complexa, por si só já rigorosa nos requisitos. Isso nem sempre se demonstrou uma boa opção se pensarmos, por exemplo, que não existem lojas habilitadas para pessoas com personalidades complexas e é possível encontrar, em contrapartida, certos locais com produtos exóticos para pessoas extravagantes.
Ora as pessoas com personalidade complexa são conhecidas por terem comportamentos e gostos próprios de personalidades complexas como acontece, aliás, com os indivíduos de personalidade comum conhecidos por terem comportamentos e gostos próprios de personalidades comuns. Tal sucedia com M. Hermann conquanto, também, se lhe conhecesse atitudes e gostos de pessoas exigentes (com atributos próprios mas não contradizendo os das personalidades complexas). Feita esta ressalva – que como todas as ressalvas se demonstrará útil no futuro – não é difícil perceber que M. Hermann tivesse uma postura adequada à sua personalidade complexa barra exigente (salvaguardando ter esta última propriedade menor volumetria em confrontação com a complexidade).
O habitual era, de acordo com a personalidade complexa de M. Hermann, pouco prometedor. Optava, por isso, pela irregularidade e não pela rotina. Preferia ir à origem das coisas antes de passar, de imediato, para a conclusão. Preocupava-se com a causa antes de cismar com o efeito.
Devido ao seu complicado temperamento M. Hermann nunca escolhia o caminho mais directo para as coisas. Sucede assim com as pessoas de personalidade complexa, especialmente se também forem exigentes (mesmo que levemente). Pensava nas rectas que nunca se encontram, embora caminhem paralelamente, e isso assustava-o. Preferia o zig zag. Mesmo correndo o risco dos trocar, tomando o zig quando devia preferir o zag e este quando importava mais o zig. O caminho mais longo parecia-lhe mais cheio de possibilidades. Ainda que a longa distância seja mais propícia a enganos que a curta e, por essa razão, tornando mais fácil as pessoas perderem o norte ainda para mais não havendo mapas especiais para pessoas de personalidade complexa. Valia o risco. Talvez isso explique o facto de nunca mais ter sido visto desde o dia em que saiu para comprar laranjas na mercearia da sua rua, conhecida pela sua simplicidade e laranjas importadas da Califórnia. Tentem nos EUA.





Sorte, azar e justiça divina

4 05 2007

Na televisão contavam a história de um indivíduo que gostava de tentar a sorte. Não há nisso nada de anormal. Muita gente o faz, pensou M. Hermann enquanto assentava uma chave: 23 – 45 – 34 – 12 – 7 – 11 – 40. O homem jogava regularmente na lotaria utilizando um sistema matemático altamente aleatório que seleccionava os números que deveria de usar dentro de uma lógica irracional, a que se chama intuição. Construíra para isso uma máquina complicadíssima, única no mundo, que ao contrário das suas irmãs mecânicas possuía instinto. O homem baseava o seu procedimento na convicção de que como deus não joga aos dados, ele o poderia bater num terreno que não era o seu. Uma vez que se tratava do chão pantanoso da sorte e como se sabe essa não é uma matéria que interesse a deus pois todos os seus desígnios, mesmo os mais misteriosos, têm na sua génese uma necessidade própria e isenta de acaso. Após várias tentativas, o homem acabou por ganhar o primeiro prémio da lotaria nacional. Por sorte, disseram na altura. No entanto, quando foi feito o sorteio em que ele saiu como vencedor o homem estava morto pois falecera durante a noite de causa desconhecida mas nem por isso menos letal. M. Hermann desligou a televisão e pensou: deus pode não jogar aos dados mas equilibra isso com justiça divina.





A pontualidade

2 05 2007

M.Hermann recebeu um pré-aviso ao aviso nº 5438 enviado pelo ministério 125 A-B, secção 1456C. Nestes casos tem-se 28 horas e 35 minutos impreterivelmente para resolver a situação. Teve, por isso, de ir tratar de uns impressos que o ministério 125 A-B, secção 1456C, lhe tinha solicitado. Dirigiu-se à repartição 124V na rua 46 norte. M. Hermann era, diga-se, extremamente pontual. Às 9 horas em ponto estava à porta da repartição 124V na rua 46 norte para entrar. A porta, no entanto, só se abriu às 9h10. M. Hermann que é pontual mas, também, curioso perguntou porquê, uma vez que o horário dizia expressamente «abertura às 9h». Porquê aquela falta de pontualidade? O funcionário nº 1453V respondeu-lhe que estava no local às 9h embora não tivesse aberto a porta uma vez que antes disso era preciso realizar algumas tarefas preliminares como: polir o balcão, vaporizar com ambientador o local e preparar-se psicologicamente para a sua tarefa – entregar e receber impressos. Agastado com a falta de visão de M. Hermann o funcionário disse-lhe que poderia preencher o impresso 897C ou 345B – caso achasse a questão grave ou muito grave – especialmente criado para reclamações daquele género. A sua reivindicação seria analisada num prazo nunca inferior a 6 meses e 12 horas e 15 minutos por um funcionário especialmente formado para esse efeito. A sua inscrição para reserva dos impressos seria a nº 26778.
M. Hermann não o fez, considerando que a pontualidade particular do indivíduo conjuntamente com a conversa com ele o tinham atrasado e acabaria por perder o autocarro 45 que, esse sim, nunca se atrasava ou pelo menos regulava-se por uma pontualidade que percebia. Pensou que se aquele fosse um procedimento normal no mundo, aquele tipo de pontualidade exigia que se atrasasse os relógios em 10 minutos ou que se inventasse um tipo especial que fizesse automaticamente essa subtracção, para manter a pontualidade habitual ou ela desapareceria. Passou a dirigir-se à repartição 125V na rua 49 sul, conhecida por ser mais condescendente com os prazos, para resolver os seus problemas.





Normalidade

28 04 2007

Um familiar de M. Hermann teve uma doença muito grave. Na altura toda a gente o tranquilizou, já que diziam que era uma coisa normal. Apesar disso, o familiar de M. Hermann acabou por morrer. Parece que para a clínica geral, ao contrário da psiquiatria, a normalidade não é relevante.





O código e a mensagem

30 03 2007

O código de barras foi considerado uma das grandes invenções do século XX, leu M. Hermann no jornal. Mais importante do que certas obras literárias, dizia na gazeta. M. Hermann concluiu que as pessoas preferem os códigos às mensagens. Apesar disso continuou a ler diariamente o seu jornal favorito. Dava-lhe mais prazer conhecer a informação do que perceber a semiótica. Quem lhe poderá levar a mal?





Dificuldades do choro

18 03 2007

M.Hermann ao contrário do seu amigo C. Khunz não era, propriamente, aquilo a que se chama uma pessoa emotiva. Muito pelo contrário. Faltavam-lhe características essenciais para o ser. E o ser é, como se sabe, bastante exigente requerendo, logo à partida, o poder ser. A M. Hermann falhava, provavelmente, dois terços do mínimo exigível para ser emotivo. E isso porque a emotividade tem graus, podendo o indivíduo ser, pelo menos, pouco emotivo, emotivo ou muito emotivo. M. Hermann estaria, na melhor das hipóteses, no patamar abaixo do indivíduo pouco emotivo. M. Hermann carecia para ser uma pessoa emotiva de quantidade de sentimentos correspondente. Em certa ocasião fez notar isso aos que o rodeavam e que não percebiam a sua natureza, nomeadamente a sua amiga Hanna C, ela uma criatura muito emotiva que não entendia a incapacidade de M. Hermann de se emocionar.
Talvez devido à sua indigência emocional (ou por outra razão menos evidente e pelo que foi dito agora a despropósito) durante anos M. Hermann nunca chorou. Isto embora, em algumas ocasiões, tivesse tido motivos para isso. Em situações muito numerosas até. E a quantidade, também, tem relação com as vezes que se chora sendo esta uma razão evidente para isso e pelo que foi dito sem vir agora a despropósito. Como quando partiu as duas pernas, lhe desapareceram todas as bagagens no aeroporto, ou lhe faleceu um amigo de infância. A certa altura M. Hermann, inexplicavelmente, começou a chorar e só parou decorridos três dias. Não percebeu porquê. Nem ninguém. Especialmente Hanna C., ela sim, uma pessoa emotiva. Afinal tinha acabado de receber o reembolso do IRS.





Capitalismo II – a especialização

15 02 2007

F ace ao excelente desempenho de M. Hermann, ninguém estranhou que a somar às suas responsabilidades habituais se juntasse, um dia, a de distribuir esferográficas pretas e vermelhas pelos funcionários. Não as azuis – mais requisitadas – uma vez que para esse tipo de responsabilidade se devia possuir no mínimo 15 anos de experiência e falar quatro línguas ainda em uso e dominar uma morta. Pelo que essa cor era do encargo da secção 124A em parceria estreita com o departamento 23M. Em todo este processo, M. Hermann contaria com a preciosa colaboração do jovem estagiário, já com formação adequado para essa atribuição, embora não pudesse estabelecer contacto táctil com os objectos – só visual – sendo que não dominava nenhuma língua morta.
M. Hermann foi informado por um membro da presidência – com essa única função – de que o capitalismo não sobrevive sem especialização e por isso contavam com ele. A reunião demorou, exactamente, cerca de 8 minutos e 13 segundos, o que era um tempo aceitável para uma reunião daquele género e que permitiria ao responsável por aquele tipo de reunião realizar todas as reuniões agendadas para aquele dia e ainda planificar as 250 que tinha que fazer durante a semana. No final a porta foi fechada por um funcionário seleccionado de entre 136 candidatos perfeitamente habilitados para fechar portas. Depois de saírem, M. Hermann teve conhecimento que o funcionário seleccionado de entre 136 candidatos perfeitamente habilitados para fechar portas a abriu para entrar um outro indivíduo que despejou os cinzeiros e os caixotes do lixo sem, no entanto, limpar o pó, tarefa exclusiva responsabilidade da secção 75C detentora, após vencer concurso para o biénio 2006-2007, do cargo de limpeza de objectos conspurcados por poeiras transportadas pelo ar ou pessoas.
M. Hermann saiu satisfeito da reunião e com esperança que lhe atribuíssem novas incumbências. Quem sabe até substituir lâmpadas. Pelo menos as de 125 Watts pois tinha consciência que lhe faltavam habilitações para mais.





Capitalismo I – necessidades

13 02 2007

M. Hermann teve, em certo momento da sua vida, um emprego no qual tinha um jovem estagiário sob a sua responsabilidade. O jovem lidava com reverência M. Hermann tratando-o por chefe e ambos tinham uma relação, no mínimo, cordial.
Sempre que acabava o papel da impressora e da fotocopiadora era M. Hermann que o dava ao jovem, depois de M. Hermann o ter solicitado ao seu superior hierárquico, que também o tinha solicitado ao seu director e este ao presidente que guardava o papel num cofre com três chaves distribuídas por três pessoas – uma do sexo feminino, outra do sexo masculino e uma terceira hermafrodita. Depois de se seguir a cadeia hierárquica, na totalidade, o jovem estagiário punha as folhas nas respectivas máquinas que, por seu turno, ficavam aptas para as suas funções de fotocopiar e imprimir. A situação complicava-se quando faltava tinta às máquinas uma vez que os tinteiros estavam a cargo da secção 127A – isto para as fotocopiadoras – e da secção 3452W no que respeita às impressoras – sendo os tinteiros encaminhados para M. Hermann que por seu turno os entregava ao jovem estagiário. Seguindo a hierarquia, a situação durava habitualmente cerca de sete horas e cinquenta e seis minutos a ser resolvida ficando as máquinas, somente disponíveis no dia seguinte. Os tinteiros ficavam guardados, durante a noite, num segundo cofre especialmente concebido para este tipo de situações com cinco chaves distribuídas por pessoas cujo sexo se desconhecia.
A juntar a esta importante função, M. Hermann tinha, também, a incumbência de verificar todos os lápis do escritório. O jovem estagiário afiava os lápis. Obviamente não todos, uma vez que era estagiário. Só os de numeração inferior a 4, uma vez que os restantes faziam parte das atribuições da secção 7890C. M. Hermann verificava se eles estavam em condições. Era este o estágio do jovem e a chefia de M. Hermann. Pode parecer pouco mas sabe-se que o capitalismo não funciona sem lápis aguçados e sem papel, pelo que o trabalho de ambos era crucial para o funcionamento da economia.





A vacina

11 02 2007

M. Hermann conhecia um cientista que conhecia outro cientista (é sabido que a comunidade é pequena e toda a gente se conhece) que falava tão baixo que nem ele se ouvia. Ninguém, por essa razão, o levava a sério. Após uma investigação de anos, o cientista conhecido de M. Hermann, descobriu uma importante vacina. Embora contasse a toda a gente o seu achado, ninguém o ouviu. Como ninguém se apercebeu da sua descoberta a vacina foi reinventada anos mais tarde. Como o outro investigador falava mais alto do que o conhecido de M. Hermann ficou com a patente. A partir desse dia o cientista conhecido de M. Hermann começou a falar mais alto. Infelizmente nunca mais descobriu nada.





Biografia

6 02 2007

M. Hermann concorreu a uma vaga para um emprego a que acorreram para selecção 897 candidatos.Na entrevista para o emprego pediram a M. Hermann que escrevesse, no máximo de 150 palavras, o que achava que melhor o definia. No dia seguinte, depois de todos os outros candidatos já terem entregue os seus textos M. Hermann entregou o seu. Tinha 500 páginas escritas a Arial 11 em espaço simples. Quando o chamaram perguntaram-lhe porque tinha escrito tanto? Se tinha assim uma vida tão preenchida? M. Hermann abanou negativamente com a cabeça. Mal começara tivera muita dificuldade com o início da sua biografia. Uma vez ultrapassado esse imbróglio inicial a meio, quando estava prestes a ultrapassar o limite de palavras exigido constatou, porém, que sofria doutro mal: não tinha espírito de síntese.





A importância do interesse

5 02 2007

M. Hermann vivia numa cidade onde 15.754 pessoas tinham nome igual ao seu. M. Hermann não sabia se gostava que 15.754 pessoas tivessem nome igual ao seu. Isto embora desconhecesse se existia um número que não lhe importasse. Ensaiou até um cálculo com base numa fórmula para achar o número ideal de nomes repetidos de cidadãos para o perceber. O resultado foi, porém, inconclusivo.
Durante muito tempo pensou nisso. Afinal, o nome é uma coisa séria pelas características que possui e pela função que desempenha: dar nome.
A certa altura deixou de o fazer e isso deixou de o perturbar. Como se quando não se vê importância nas coisas elas deixassem de interessar.





Para existir é preciso ter nome

4 02 2007

M. Hermann teve um problema de saúde durante a noite. Telefonou para uma linha de atendimento para que o ajudassem. Do outro lado uma Sra., preparada especialmente para aquela função e com anos de experiência, perguntou-lhe pelo que tinha. Não conseguiu dar um nome ao seu padecimento, pelo que a Sra. com anos de experiência não o conseguiu ajudar. Argumentou que para bom entendedor meia palavra basta. A Sra. preparada especialmente, para aquela função sentiu-se ofendida. Embora não soubesse dar um nome nem à ofensa nem ao que ela tinha despertado em si. Solicitou, novamente, a M. Hermann que encontrasse um nome para o que sentia. Nada. Então a Sra. preparada especialmente para aquela função e com anos de experiência desistiu.
M. Hermann telefonou, então, para outra linha com outras Sras. preparadas, especialmente, para aquela tipo de função e com anos de experiência. Uma voz pré-programada pediu a M. Hermann que caso a sua doença principiasse por uma letra compreendida entre o A e o F premisse a tecla 1, entre uma letra situada entre o G e o L a tecla 2, entre o M e o Q 3, entre o R e V a tecla 4 e 5 para XWYZ.
Como M. Hermann desconhecia o nome para o que tinha não pode premir nenhuma tecla.
A falta de nome fizera com que o problema de M. Hermann fosse impossível de identificar de entre todas as enfermidade conhecidas pela medicina e analisadas em tratados médicos. Era como se não existisse. No dia seguinte, no entanto, o estado de M. Hermann agravou-se, pelo que o problema continuava a existir independentemente dele, ainda, desconhecer o nome da sua doença. Afinal, para existir não é preciso ter nome.





M. Hermann – Um quê sem porquê

4 02 2007

M. Hermann era o que se considera um homem moderno. Tinha dois terços das características mínimas necessárias. Provavelmente até pós-moderno, embora com convicções clássicas. Tinha investido nisso esforço, tempo e engenho. Era um homem comum, igual a tantos outros, ou talvez essa não fosse a melhor maneira de o apresentar, uma vez que não gostava dos assuntos da maioria.
Vivia no nº 17. Numa casa situada numa longa recta, mais exactamente no quilómetro 8, no ponto onde ela terminava e numa curta distância começava a curvar. A habitação parecia uma embarcação especial com proa pontiaguda encalhada no cimento, sem mastro ou velas suficientemente fortes para a arrancar dele. Ainda bem, porque pertencia àquele grupo sem ter para onde ir.
Não se pode dizer que fosse alto ou baixo, gordo ou magro. Estava entre uma posição que se destaca pelo excesso e outra que aparta pelo defeito. No meio. Que, como se sabe, é um bom sítio para se estar uma vez que não compromete.
M. Hermann não era indeciso. Embora essa convicção pudesse surgir facilmente durante o contacto consigo. Talvez só um pouco (ou muito) hesitante. Por essa razão (ou provavelmente outra ou outras) tentava combinar o melhor dos mundos possíveis. Ora, isso é muito difícil de conseguir uma vez que o melhor dos mundos possíveis é algo, por vezes, impossível de atingir. E o impossível é inultrapassável. Para resolver essa dificuldade, M. Hermann optou por estar no meio. Que, como já foi dito e antes disso já era sabido, é um bom sítio para se estar uma vez que não compromete.
Por essa razão (ou provavelmente outra ou outras, como já foi dito e antes pressuposto) gostava mais dos números pares mas servia-se, mais regularmente, dos ímpares. Preferia o doce mas escolhia o amargo. Usava roupa escura mas gostava de tons claros. Ia para a direita mas desejava a esquerda. Todos achavam que havia um quê em M. Hermann a que faltava um porquê. Ninguém sabia explicar a personalidade de M. Hermann. Alguns diziam que tinha temperamento de político uma vez que, também a essa classe se reconhece, por vezes, a antipatia pelo comprometimento. Estimularam-lhe, por isso, o gosto pela política. M. Hermann não tinha, porém, aspirações políticas. Achava que estava bem representado governativamente; dado que a maior parte das vezes também os políticos, tal como ele, não sabiam o que decidir. A sua condição permaneceu inalterada. Até hoje as pessoas acham que M. Hermann tem um quê para o qual não encontram o porquê.