Avestidura era equiparável aos modos: elementar. O mirar justo como o espírito. As vistas, embora vencidas pelo interesse que se presta à intelecção do mundo, estavam apeadas do alfabeto. Não que lhes incomodasse rachadura na íris que impossibilitasse o trato com as letras. Antes uma certa miopia que se reserva desenvolvimento por aquele ser jargão só perceptível para corpo adequado para a sagacidade, o que se impossibilita por berço aos espíritos fadados a roer côdea.
Mas, ainda assim, isso não o impedia de entender a humanidade, compreendia-a até convinientemente. Sabia que ela não deseja vendilhões no seu templo e que por isso não devia cobiçar mais do que o que tinha na presença. Descomedida incumbência para tão insuficiente corporação.
Andava geralmente desferrado de calçado. Essa nudez era repreendida pelo restolho, insensível como o asfalto à pelintrice, que lhe desfraldava o couro sempre que pousava o traçado do seu calcanho, descalço, sobre si. Era uma espécie de vindicta pela ousadia de ele o calcar. O único par de sapatos que havia era de número emancipado ao seu palmo e meio de gente e que por isso ultrapassava em muito o seu pé em edificação. Sempre que o usava a sua medida agigantada e a vaga proporcionada pela ausência de meias trucidavam-lhe o calcanhar queimando-lhe os artelhos, deixando vislumbrar, se se dispusesse de atenção para isso, o alabastro da formatura óssea.
Os rigores de tal usufruto inviabilizavam a crescença prometida, pelo menos a breve trecho, mesmo que de mendinho vestígio de epiderme na periferia entregue às postulas. Apesar de tudo, a situação era preferível à inexistência de calçado. Muito embora o único proveito fosse a ligeireza do porte.
O traço único do seu par de sapatos fazia com que ele se adequasse, exclusivamente, para conjunturas de garantido e meritório interesse. De entre as cerimónias merecedoras da utilização consentânea de calçado sobreluziam os acontecimentos do aforamento religioso: missas e comunhões.
Durante demorado período discorreu que o Senhor tivesse desejo de ver os devotos devidamente calçados sempre que entravam no seu domicílio ou que se apresentassem a Si. Como os caminhos do Senhor são nebulosos e como ele tem móbil que a própria razão desconhece, nunca se questionou acerca da monta de entrar calçado para a homilia quando nos outros dias sentia sobre os pés nus o rendimento da Sua criação. Era isto numa altura em que se teve ainda tão pouco tempo para crescer que não se percebe porque é que se anda descalço na generalidade das datas e ao Domingo e na casa de Deus tem que se comparecer calçado.
Por razões várias das quais a contingência é ambiência dominante perdera-se de amores por uma mulher, ainda em formação, cuja mácula maior sabida, e na verdade única, era viver a caudalosos quilómetros de distância, condição essa compensada, largamente, pela sua beleza bucólica que serviria de modelo de Boticelli para o provir da Vénus caso fosse sua contemporânea. Uma bicicleta de dois rodados enviesados feita mais de boa querença do que acessórios ideais catapultava-o para ela. Extravasava maleitas velocipédicas múltiplas: um enfisema pneumático, reumatismo nos travões, uma campainha afónica, um selim flácido. O que não daria por um bife que lhe empanturrasse a genica, servindo-lhe de elemento impulsor investido na pedaleira e que lhe gerasse movimento extra.
Apesar de tudo, o optimismo levava-o a imaginar o seu veículo desfalcado com propriedades ideais. Afinal, a imaginação quando quer também sabe ser generosa. E o faz de conta salva de qualquer posição mais delicada o desventurado permitindo não só que ele trapaceie a desilusão como, ainda, enfrente corajoso qualquer dificuldade.
Era, portanto, feliz, embora se possa ver nessa felicidade certo estado de ilusão próprio de bodo para pobres. A contrariedade surgiu ia a década a meio em forma de convocação por edital para uma contenda de latitude africana da qual desconhecia interesses e partes envolvidas. A solicitação, que não exigia vocação guerreira, por ser pouco rigorosa em exigências recusava senão. A sorte acabara por lhe ser madrasta mesmo para alguém a quem nunca se tinha afeiçoado. Mas não seria essa falta que a tornaria mãe extremosa. O chão mesmo que rasteiro acabara por o desamparar. Tombou volvidos seis meses sobre ele sem possibilidade de voltar a arrebitar.
Da namorada nada se sabe. No entanto, diz quem o viu que no dia do seu funeral assomava da mortalha trajando fato limpo e engomado e sapato de verniz fúlgido. Apresentava-se ao seu destino calçado. Não era de estranhar pois tinha aprendido, fazia anos, uma verdade insofismável: na casa do Senhor não se entra com pé descalço.
A CENSURA na comunicação social existe, está aí. Por isso…
Para lá de uma certa Almada virtual na televisão e nos encartes de jornais, há quadros, cenas e imagens de uma Almada real escondida e esquecida que os almadenses não gostam de ver.
http://emalmada.blogspot.com
Meu velho, ou eu sou um tremendo ignorante da grafia portuguesa e seus significados linguísticos, ou esse seu texto foi escrito para alguém com QI além das capacidades da escrita comum. Falo isso poque achei este texto com uma linguagem muito pessoal, isto é, você escreveu para seu próprio entendimento, não o do leitor variado. Não sei se estou errado, se estiver please, me explique. Mas o bom é que cada um tem sua característica.
Valew mano! Até a próxima. http://minhaliteraturablog.blogspot.com