Sobre a importância de se falar sobre o que se sabe

9 05 2007

“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”
Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus

Um amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann, com queixo duplo e barriga tripla citava sempre o mesmo livro do qual só conhecia metade das páginas ou, na melhor das hipóteses, dois terços. Não era caso raro, sabendo-se existir número significativo de leitores com essa propensão independentemente da capa, formato, autor ou conteúdo das brochuras com que contactam.
M. Hermann conhecia outras pessoas de citação única e de livros que só avaliavam pela metade ou na melhor das hipóteses dois terços do seu conteúdo. Ainda que nem todos fossem seus amigos ou amigos de amigos.
Ora, é sabido que os livros têm umas partes melhores e outras piores pelo que conhecê-los sem ser na íntegra é sempre um risco. Podemos sempre apanhar um terço mau ou uma metade ainda pior. Maior o sufoco quando se aproveita para citação esse pouco. Mas o amigo do amigo de outro amigo de M. Hermann aconselhava o seu único livro, do qual conhecia entre a metade e dois terços do seu conteúdo, como se fosse preferível a todos os outros. Não o era, provavelmente. Ainda assim era esse que aconselhava. Era natural, uma vez que era o único que tinha lido. E só devemos falar daquilo que conhecemos. Mais não seja para não sermos apanhados desprevenidos por uma tese traiçoeira. Embora o homem em questão não estivesse, totalmente, livre desse embaraço por poder ser questionado sobre parte nunca lida continuou a citar o seu livro.
A juntar ao seu gosto pela citação de um livro de que só conhecia metade ou no máximo dois terços, deste acrescia o gosto do amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann ler na diagonal o que fazia com que grande parte da extensão do livro ficasse por ler, o que não ocorreria se respeitasse os trâmites de leitura em vigor de tradição mais horizontalizada.
O amigo de um amigo de outro amigo de M. Hermann de citação única de um livro de que só conhecia metade ou no máximo dois terços a que se juntava a particularidade de ler na diagonal tinha um problema grave de concentração. Fora-lhe diagnosticado, um défice de atenção – por um indivíduo que se viu na contingência de ter de ler livros de medicina na totalidade para poder ser médico – que o impedia de apurar o sentido a parágrafos completos pelo que se ficava por frases curtas. Tendo em consideração as características da leitura do indivíduo fazendo as contas necessárias – usando o número total de páginas como referência, atribuindo índices baseados nos atributos do seu modo de ler e sabendo que o número de páginas lidas deixaria sempre de fora pelo menos um terço da paginação – alguém concluiu que ele se limitava a citar o título da obra que lera. Mas porque citará ele só um livro se se limita a alvitrar o título?, perguntaram todas as pessoas que tomaram conta da situação – algumas das quais reconhecidas por serem de citação, também, pouco generosa –, bastar-lhe-ia passar os olhos por qualquer estante pelas lombadas dos volumes aí existentes para retirar daí citações em maior quantidade. Alguém que não era amigo de M. Hermann mas que privava, frequentemente, com aquela criatura resolveu, porém, o mistério. A biblioteca do sujeito era de exemplar único. E, afinal, só se deve falar sobre o que se sabe.


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