Comparações e primeiras impressões

9 04 2007

Q uando C. Khunz abriu a barbearia muitos o compararam com o antigo dono cuja prática o tornara célebre a quarteirões de distância e procurado por pessoas de outras cidades que só em si depositavam confiança para lhes fazer a barba e cortar o cabelo. Foi muita a suspeita de que C. Khunz não estivesse à altura de semelhante herança. Os primeiros tempos não foram fáceis. Talvez porque tinha um problema que agora o prejudicava bastante: as primeiras impressões.
- «Nunca tive muito sucesso com a primeira impressão», dizia. Aliás, C. Khunz dava tudo para passar directamente para a seguinte.
- «Sou um tipo de segundas impressões. A primeira só me prejudica. Pressupõe cerimónia, cortesia e acatamento que não disponibilizo. Passava bem sem ela. Porque raio tem de haver primeira impressão? Porque raio tenho de arcar com as consequências de uma coisa em que não tenho responsabilidade? Dá-se demasiada importância à primeira impressão. A primeira impressão só favorece tipos como Valentino e eles existem numa relação de 0.4 Valentinos para 5879 C. Khunz’s. Devia existir um decreto que ilegalizasse o uso da primeira impressão. Que a tornasse obsoleta. Sem préstimo. Odiada. Votaria num partido que tivesse essa proposta. Mobilizaria todos os que sofressem do flagelo da primeira impressão. Seríamos muitos. Poucos a princípio, é certo, que ninguém gosta de admitir ser mau na primeira impressão mas o número aumentaria, até sermos mais dos que usufruem, há anos, da primeira impressão. Abaixo a primeira impressão. Viva a segunda, terceira ou quarta.» Esta era a posição de C. Khunz em relação à primeira impressão que pouco ou nada mudou ao longo dos anos.
No fim-de-semana da primeira semana de actividade da barbearia o jogador favorito da equipa favorita de C. Khunz marcou três golos e foi considerado o melhor jogador da jornada. Durante a semana seguinte foi idolatrado por todos. Todos os jornais apresentaram artigos sobre ele e as televisões disputaram a sua comparência nos seus horários nobre. No fim-de-semana da segunda semana de actividade da barbearia o jogador favorito da equipa favorita de C. Khunz foi expulso durante o jogo acom a equipa rival e foi considerado o pior jogador da jornada pela sua falta de desportivismo. No fim-de-semana da terceira semana de actividade da barbearia ninguém se lembrava do jogador favorito da equipa favorita de C. Khunz.
No segundo mês de actividade C. Khunz tinha mais clientes do que o antigo dono da barbearia.


Acções

Informação

Uma resposta

12 04 2007
iMia

Dei uma voltinha e tenho a dizer o seguinte: gostei muito. Parabéns. E continue a dar-nos o prazer de o ler.

Publicar um comentário