O original e a cópia

21 02 2007

C. Khunz tinha uma barbearia onde M. Hermann cortava o cabelo. Tesouras de vários números e cortes, navalhas com lâminas afiadas, frascos, pentes, escovas, perfumes e espumas governavam-na como soberanos observados, sobranceiramente, como um aristocrata por um peixe-dourado enclausurado num aquário desde a abertura da barbearia. Há quem desejando um quadro famoso se contente com uma gravura. Não podendo ter o oceano, C. Khunz tinha uma cópia aproximada: um aquário.
O peixe tinha escamas e barbatanas vermelhas. Era um peixe vermelho genuíno, orgulhoso da sua espécie e estatuto. Nadava vigorosamente serpenteando as águas, cortando-as e tingindo-lhes, desdenhosamente, o azul à passagem com a sua cor: o vermelho.
Os peixes vermelhos como todos os outros nascem no mar. Não nascem em aquários das lojas de animais de estimação. Não existem fábricas onde são feitos. Este não era excepção. Foi trazido, em tenra idade, do oceano directamente para um ovo de vidro que estava em cima de uma mesa, logo à entrada da barbearia de C. Khunz – o seu humano pai adoptivo.
Como fora trazido ainda novo para a sua nova casa, tivera pouco tempo para aprender a ser peixe:
- Caçar;
- Fugir aos predadores;
- Comunicar em linguagem de peixe, etc.
Felizmente, nada disso era preciso no seu novo lar. C. Khunz assegurava-se, diariamente, de que nada lhe faltava:
- Alimentava-o;
- Mudava-lhe a água;
- Falava com ele através do vidro;
- Acarinhava-o…
Estranhamente algo sucedeu. A princípio C. Khunz nem se apercebeu. Algo que sucede, frequentemente, com as coisas que nos estão mais próximas por falta de generosidade, em atenção, para com elas. Não deu conta, uma vez que é exigente, em tempo e dedicação, o corte da barba e cabelo. Tudo o que o peixe aprendera ao percorrer os mares foi sendo esquecido. Lentamente esqueceu como se caçava por entre as algas, pois nunca lhe faltava alimento, apesar de que para isso não tivesse de fazer alguma coisa. Gradualmente esqueceu-se dos seus predadores naturais, pois vivia sozinho no seu ovo de vidro. Acabou mesmo por se esquecer como se nadava pois não podia ir a nenhum lado.
Acabou, no entanto, por se esquecer do mais importante e, ao mesmo tempo elementar: que era um peixe. Certo dia C. Khunz encontrou-o a boiar, morto. Tinha morrido afogado. Esquecera-se de como respirar debaixo de água, disse um cliente a C. Khunz.
C. Khunz atendeu quinze clientes nesse dia, dez a quem cortou o cabelo, 4 a quem fez a barba e 1 a que aparou o bigode. Nunca mais comprou outro peixe-dourado e desfez-se do aquário. Uma cópia é sempre uma cópia. Percebendo isso, C. Khunz começou a ir mais vezes ver o oceano. Nada se compara ao original.


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18 03 2007
Dificuldades do choro « Pena Capital

[...] do choro 18 03 2007 M.Hermann ao contrário do seu amigo C. Khunz não era, propriamente, aquilo a que se chama uma pessoa emotiva. Muito pelo contrário. [...]

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