M. Hermann era o que se considera um homem moderno. Tinha dois terços das características mínimas necessárias. Provavelmente até pós-moderno, embora com convicções clássicas. Tinha investido nisso esforço, tempo e engenho. Era um homem comum, igual a tantos outros, ou talvez essa não fosse a melhor maneira de o apresentar, uma vez que não gostava dos assuntos da maioria.
Vivia no nº 17. Numa casa situada numa longa recta, mais exactamente no quilómetro 8, no ponto onde ela terminava e numa curta distância começava a curvar. A habitação parecia uma embarcação especial com proa pontiaguda encalhada no cimento, sem mastro ou velas suficientemente fortes para a arrancar dele. Ainda bem, porque pertencia àquele grupo sem ter para onde ir.
Não se pode dizer que fosse alto ou baixo, gordo ou magro. Estava entre uma posição que se destaca pelo excesso e outra que aparta pelo defeito. No meio. Que, como se sabe, é um bom sítio para se estar uma vez que não compromete.
M. Hermann não era indeciso. Embora essa convicção pudesse surgir facilmente durante o contacto consigo. Talvez só um pouco (ou muito) hesitante. Por essa razão (ou provavelmente outra ou outras) tentava combinar o melhor dos mundos possíveis. Ora, isso é muito difícil de conseguir uma vez que o melhor dos mundos possíveis é algo, por vezes, impossível de atingir. E o impossível é inultrapassável. Para resolver essa dificuldade, M. Hermann optou por estar no meio. Que, como já foi dito e antes disso já era sabido, é um bom sítio para se estar uma vez que não compromete.
Por essa razão (ou provavelmente outra ou outras, como já foi dito e antes pressuposto) gostava mais dos números pares mas servia-se, mais regularmente, dos ímpares. Preferia o doce mas escolhia o amargo. Usava roupa escura mas gostava de tons claros. Ia para a direita mas desejava a esquerda. Todos achavam que havia um quê em M. Hermann a que faltava um porquê. Ninguém sabia explicar a personalidade de M. Hermann. Alguns diziam que tinha temperamento de político uma vez que, também a essa classe se reconhece, por vezes, a antipatia pelo comprometimento. Estimularam-lhe, por isso, o gosto pela política. M. Hermann não tinha, porém, aspirações políticas. Achava que estava bem representado governativamente; dado que a maior parte das vezes também os políticos, tal como ele, não sabiam o que decidir. A sua condição permaneceu inalterada. Até hoje as pessoas acham que M. Hermann tem um quê para o qual não encontram o porquê.
e PORQUE é QUE tem QUE haver um QUÊ para o PORQUÊ ?
O QUÊ sem PORQUÊ existe e existirá sempre PORQUE o QUÊ não precisa de PORQUÊ para existir, tal como o PORQUE.